segunda-feira, 6 de abril de 2015

Ser mãe no exterior

Deixo aqui um resumo do último ano, explicando, em parte, a minha ausência. O texto abaixo foi feito para uma série de entrevistas sobre temas relativos à vida na chancelaria para o blog http://diplowife-diplolife.blogspot.com.br, da querida diplomatriz Elisa Pinchemel. Um blog cheio de boas informações sobre a vida diplomática. Respondi questões acerca da minha experiência com a maternidade no exterior, dificuldades linguísticas e culturais no pré-natal e perspectivas futuras sobre educação dos filhos.

Quanto ao blog aqui, espero voltar em breve. 

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Celina, 31 anos, é formada em Relações Internacionais, pós-graduada em Administração de empresas e (até quando foi possível) atuou em consultoria de empresas. Casada com Cassiano, diplomata desde 2010. Viveram em Libreville de 2012 à 2014 e desde abril de 2014 estão em Montreal. São pais do Nicolas, 9 meses.



Logo após o término do curso no Instituto Rio Branco, meu marido e eu decidimos partir para a nossa primeira missão no exterior, ainda sem filhos, para um posto D (que concentram os países mais difíceis para viver e têm, devido a isso, os maiores salários da carreira). O plano era enfrentar as dificuldades do posto D, no caso Libreville, no Gabão, aproveitar para viajar e conhecer a África e também poupar para a chegada do nosso pequeno em um próximo posto. O nosso maior cuidado era para que quando eu engravidasse o bebê nascesse em um país com recursos médicos, livre de conflitos, doenças endêmicas e de riscos de desastres naturais, e assim pudéssemos aproveitar desse momento tão esperado com tranquilidade. No caso de Libreville, o maior problema para se ter filhos é que a região está em uma área onde a malária é endêmica, com milhares de mortes todo ano, especialmente de grávidas e crianças. 

Em meados de setembro de 2013 nosso maior presente chegou. Estávamos viajando pela Alemanha, de férias, e foi lá o nosso primeiro ultrasson confirmando a gravidez. Médico alemão, no seu modesto consultório, usava pantufas. Da descoberta da gravidez até o final visitamos 7 médicos, em 4 países (!). Imaginem isso! Em Libreville visitei 3 clínicas e as estruturas eram precárias (demora no atendimento, limpeza a desejar, etc...), até que na quarta tentativa encontrei uma médica bastante atenciosa, que realizou o pré-natal. A clínica que ela atendia era bem cuidada e organizada.

A gravidez caminhava bem e então decidimos ir ao Brasil para curtir a notícia com nossas famílias e, em Curitiba aproveitei para realizar exames complementares e ter uma longa conversa com meu médico, que depois continuou acompanhando os detalhes da gravidez por e-mail. A missão em Libreville terminou quando eu estava chegando aos 7 meses de gestação e então fomos removidos para Montreal, no Canadá. A médica que realizaria as consultas finais e o parto (ufa) foi indicada pelos funcionários locais da Missão e isso foi um grande alívio, uma vez que a gravidez já estava bastante adiantada. 

No Canadá, cesarianas são realizadas apenas em casos de necessidade. Desde o início eu estava disposta a ter o bebê através do parto normal, mas não descartava a opção da cesariana. Tive um parto normal com anestesia e sem maiores problemas. Meu filho nasceu e veio direto para os meus braços e não saiu do quarto em que eu estava nem por um minuto, assim como meu marido. No dia seguinte nós três já estávamos em casa.

O fato de se tratar de um primeiro filho, de estarmos no exterior, longe da família e dos amigos, causa uma certa insegurança, soma-se a isso muitos fatores de tensão, como realizar uma mudança continental, tomar diversas providências burocráticas, cruzar o globo, morar um tempo em hotel, procurar uma nova casa, ir a consultas médicas, comprar enxoval do bebê nos últimos e pesados meses de gravidez (sim, a barriga pesa muito) e se ambientar à nova cidade, tudo isso em outra língua... Definitivamente é um grande desafio, que demanda muito desprendimento, equilíbrio emocional e, claro, uma dose de sorte, pois tivemos que torcer para que o bebê não chegasse antes da data prevista. E deu certo! Nosso container chegou no dia 01 de junho, já na casa nova e o Nicolas chegou no dia 19, ou seja, ainda tive quase 20 dias pra ajeitar tudo...tranquilíssimo (hahaha)! 

Acho que as dificuldades com pré-natal e parto teriam sido muito mais maiores se tivéssemos ficado no Gabão. Talvez eu tivesse ido ao Brasil para ter o bebê. Em Montreal, assim como em outros países, um aspecto bastante diferente é que os médicos estrangeiros são bem menos personalistas. Algumas pessoas podem achar que sejam frios ou até que as consultas são muito rápidas por serem nada detalhistas, mas eu não vejo isso como uma barreira ou grande dificuldade. Talvez a maior dificuldade seja expressar em outra língua coisas muito subjetivas que sentimos durante a gravidez. Por mais que nós fizéssemos uma lista mental antes das consultas e pesquisássemos os termos médicos, sempre senti que queria ter explicado mais e melhor... eu pensava muito sobre como seria na hora do parto, se eu conseguiria falar em outra língua, mesmo estando com dores ou "sei lá o que", mas funcionou muito bem. Acho até que algumas vezes, ali na hora da correria, eu estava entendendo melhor que meu marido! 

Claro que com toda essa grande movimentação - mudança, bebê, container chegando, Copa do Mundo (hehehe) - chegou reforço familiar para nos ajudar. Foi imprescindível ter pessoas da família no meio dessa correria toda, foram dias muito agitados e também muito felizes. O ano de 2014, sem dúvidas, vai ficar marcado pra nós como o mais movimentado de nossas vidas (até agora). Pretendemos seguir no exterior ainda mais alguns anos, assim nosso aventureirinho terá a oportunidade de ter seus primeiros passos escolares numa ambiente multicultural, o que pra nós é motivo de muita alegria e realização de um sonho.

quinta-feira, 13 de março de 2014

É hora de partir

Sim, é isso mesmo! Estamos completando dois anos desde a nossa chegada, mais de 50 posts aqui no blog e mais de 26 mil acessos (uau!). Mas agora é hora de deixar Libreville, o Gabão, a África...

Registrei aqui uma parte dessa experiência no continente africano, contando sobre as dificuldades, belezas, boas e más surpresas que tivemos. Fazendo a retrospectiva, no blog e na memória, fica fácil dizer que fui muito feliz aqui. Até os momentos mais tensos agora já se tornaram um bom motivo de risadas e de histórias para contar! Aos que virão em algum momento para a África, vale dar uma lida nos posts mais antigos, destaco principalmente estes: 

Malas para a África    Sobre Malária     Gabonitudes    Desafios    Mídias Médias

Àqueles(as) que estão no mesmo barco, o dos acompanhantes de diplomatas/expatriados, digo que o medo e a insegurança que nos rondam realmente têm algum motivo para existir. Ter que deixar de lado ou adaptar planos e sonhos para entrar em uma aventura sem fim (e meio sem rumo) pode ser muito doloroso, mas definitivamente pode ser muito bem recompensado pela oportunidade de ver o mundo por diversos outros ângulos. Não é um conto de fadas e nem um pesadelo, é uma experiência em que o sucesso ou o fracasso dependerá unicamente do ângulo em que você está se vendo e vendo o mundo.

Para mim, ter entrado neste barco tem sido extremamente enriquecedor no âmbito pessoal e me possibilitado muitos momentos especiais. Não trocaria por nada as experiências que vivi nos últimos dois anos - até o pior dos momentos serviu para me fazer perceber o que é a felicidade real, sem ilusões, sem falso auto-convencimento para disfarçar frustrações, elas foram indispensáveis para desenvolver uma perspectiva otimista para "a dor e alegria de viver". 

Tenho novos planos, novos objetivos a serem alcançados - que talvez sejam até melhores do que os que eu tinha uns anos atrás, mas o principal é que ainda virão muitas novas histórias e, agora, com um novo aventureirinho para cuidar, amar e desbravar o mundo junto com a gente!

Nosso próximo destino é mais gelado, tecnológico e sem malária (uhuull)! Se aqui em Libreville faltavam opções de lazer, lá vai ser é difícil decidir a programação do dia: Montreal, Canadá! 

Nous arrivons! We are coming! Estamos chegando!!! 




          Fotos: pinterest.com

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Ele está chegando!!!

Os últimos meses foram pra lá de movimentados. A grande notícia é que estamos esperando nosso primeiro bebê! Já passamos mais da metade do caminho das 40 semanas e estamos cheios de planos e expectativas para a chegada do Nicolas, o que deve acontecer em meados de junho! 

Não, não é fácil encontrar bons serviços médicos no Gabão. Apesar de existir hospitais e clinicas privadas que fazem o acompanhamento pré-natal básico, é preciso lembrar que não existem equipamentos de alta tecnologia para o caso de uma emergência ou, que por exemplo, possam saciar a curiosidade dos pais para saber o sexo antes das 18 semanas de gravidez. Pelo mundo afora já existe exame de sangue que confirma o sexo do bebê com apenas 8 semanas de gestação!!! 

Visitei várias clinicas e médicos aqui em Libreville, a maioria dos médicos são gaboneses com formação na França. Optei por fazer o acompanhamento com uma médica mais jovem, em uma clínica pequena, que teve o melhor atendimento e que foi bastante sincera ao expor as limitações locais em termos de equipamentos e equipes disponíveis e bem preparadas. Nos hospitais o atendimento para as gestantes é feito, normalmente, a partir das 15 horas, por ordem de chegada... Cheguei a ficar mais de 2 horas para ser atendida e duas horas sentada numa sala de espera. É o suficiente para você notar todos os detalhes da decoração, da limpeza e também do trato dos funcionários com os pacientes... desisti rapidinho e optei pela clínica menor, mais ágil e aconchegante.

Assim que foi possível, fui ao Brasil! Visitei meu médico (tão bom fazer uma consulta médica na sua língua natal), fiz ultrassom 4D (uhuull) e claro, passei momentos deliciosos com nossas famílias, compartilhando de todas as alegrias dessa etapa.

O legal da demora em saber o sexo foi que podemos fazer uma festinha para revelar o sexo do bebê para a família. Foi muito divertido!


Uma decisão já tomamos: O Nicolas não vai nascer no Gabão. Acho que antes de tudo precisamos de um local onde nos sintamos seguros e que tenha todos os recursos tecnológicos à disposição para o caso de alguma emergência. Eu costumo desmaiar até para tirar sangue, imaginem... ehehe. 

Caso alguém um dia precise, deixo o nome de duas clínicas e também de um hospital que considerei como sendo os mais organizados: Centre Médical du Littoral, SOS Médecins e Polyclinique El-Rapha. 

Agora é focar na segunda metade da gravidez e organizar a chegada do mais novo amor da minha vida! 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

I Maratona do Gabão

Libreville foi anfitriã de mais um grande evento: a Primeira Maratona do Gabão. 

Foram cinco corridas diferentes, na verdade: de 1 e 3 km para crianças, de 5 km exclusiva para mulheres, e de 10, 21 (semi) e 42 km (a verdadeira maratona) para as mais ousadas e ousados.


Apesar da cidade dispor de poucas vias apropriadas para uma longa corrida de rua, o que, de fato, fez com que a cidade ficasse literalmente parada durante 2 dias, o evento foi bem organizado. Havia estrutura de tendas com stands e distribuição de kits, água, frutas e lanches para os inscritos. 

Eu fui só dar uma espiada, mas o maridão correu os 10km. Em pleno calor equatorial de uma manhã de domingo, com chuva torrencial para aliviar o calor dos corajosos! 

Uma boa iniciativa do governo, uma vez que a prática de esportes acaba sendo muito limitada aqui em função da cidade não possuir parques, praças ou quadras esportivas públicas. Como pode-se correr em qualquer calçada (e há uma razoável na beira-mar), é uma boa solução.


Primeira dama entregando os troféus










sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Encontros II

A comunidade brasileira no Gabão é bastante pequena. Em torno de 70 pessoas, boa parte religiosos vivendo no interior do país. Cerca de 20 moram em Libreville, a maioria brasileiras que se casaram com gaboneses quando esses realizavam seus estudos superiores no Brasil. Teve uma brasileira, porém, que não quis embarcar para Gabão... E aí começa a história que conto hoje, a história do Fábio. 

Nosso amigo Fábio nasceu no Brasil e tem sobrenome gabonês. Desde pequeno sabia que seu pai era africano e que sua mãe não havia aceitado a proposta do então companheiro de embarcar com ele de volta para o Gabão. Fábio passou quase 30 anos pronunciando errado o seu sobrenome e sem saber quase nada sobre seu pai, senão o nome. Um ano atrás ele finalmente ouviu a pronúncia correta do seu sobrenome pela primeira vez, quando veio ao Gabão conhecer seu pai. 

O caminho de Fábio até chegar aqui foi longo. A mãe havia perdido o contato com o pai, o que fez com que ele, ainda na adolescência, tenha iniciado a buscar pistas na internet, quando o Google ainda mal existia. Muitos anos depois, em um site de bate-papo, encontrou um rapaz africano que acabou se provando ser seu meio-irmão. Mesmo com as dificuldades linguísticas, eles passaram a se comunicar e o Fábio decidiu fazer a grande viagem rumo às suas origens. Veio a Libreville de mente, espírito e coração aberto. Encontrou não apenas seu pai, mas seus irmãos, tios, tias, primos, avós e as esposas de seu pai (sim, aqui é permitido!). 

Fábio agora busca conciliar suas atividades profissionais em comércio exterior com o seu vínculo gabonês recém descoberto. Mais do que ninguém, ele quer estreitar os laços Brasil-Gabão. 

Em duas visitas que fez ao Gabão, Fábio já foi para o interior do país de trem e em uma das paradas viu pegadas e rugidos de pantera, visitou vilarejos, foi apresentado aos pratos tradicionais: carne de macaco, cozido de vermes de árvores e várias outras especiarias. Experimentou bebidas de tirar o ser humano de seu eixo por alguns dias, conheceu músicas, histórias, suas raízes. Não foi uma visita turística e nem a experiência vivida pelos expatriados. Foi a imersão imediata no dia-a-dia, nos costumes de uma família verdadeiramente gabonesa... a família dele. 

Em uma dessas noites de calor gabonês (quente, muito quente), presenciei o Fábio e o seu pai conversando sobre suas vidas. O pai, esforçando-se para relembrar o português que aprendera no Brasil quase trinta anos atrás. O filho, dando seus primeiros passos no francês e no batéké, a língua nativa da família. No meio de toda aquela mistura de mundos e recordações, uma coisa ao menos ficava clara: sentimentos não precisam de tradução. 

Nessa noite, ao descobrir que o Fábio tem talento para a música, providencio às escondidas para que ele possa dar uma "palinha" no piano do restaurante. Ele começa a tocar algumas notas, surge um jazz. Impossível não se emocionar ao ver lágrimas no rosto do pai, que acabara de descobrir mais um motivo para se orgulhar do seu filho recém encontrado.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Encanto

Se tem algo que realmente me encanta em Libreville é o pôr do Sol! 








sábado, 7 de setembro de 2013

Mariage coutumier: o casamento tradicional no Gabão


Hoje vou tratar de um tema complexo e com implicações sobre a questão de gênero, o mariage coutumier (casamento tradicional), bastante comum no Gabão e em diversos países africanos. A cerimônia terá particularidades mesmo dentro de um país, a depender da região e da etnia a que os noivos pertencem.

É sem dúvida um dos rituais mais interessantes e tradicionais da cultura gabonesa, mas, como é comum nas instituições sociais, tem suas controvérsias.


O grande dia


De quinta a domingo se você ouvir sirenes e ver comboios de carros escoltados pela polícia, lotados de pessoas (incluindo em cima de caminhonetes) vestindo as mesmas cores e em clima de comemoração, não tenha dúvidas: não é revolução, é casamento!



Os membros da família da noiva vestem-se com tecidos iguais, que combinam com o tecido da família do noivo.

O tecido ("pagne") é previamente definido e deixado em lojas de tecido da cidade com o nome dos noivos. Os convidados irão coser seus trajes com o tecido escolhido pelos noivos, no modelo que preferirem.

A maquiagem da noiva pode revelar suas origens ou ainda uma forma de se comunicar com o mundo dos espíritos. Por muito tempo eram feitas com carvão, argila e outras substâncias naturais.


 

O ritual

O ritual do casamento, na verdade, começa muito antes do grande dia, como nós bem sabemos. A primeira etapa é a apresentação do noivo aos pais da noiva e corresponde mais ou menos ao noivado. Neste primeiro encontro o noivo deverá levar presentes para a família da noiva, sendo dinheiro uma oferta bem vista.

Após cerca de 6 meses, é hora da cerimônia do casamento. A cerimônia acontece quase como um teatro conduzido por um orador (normalmente um tio mais velho da noiva), que irá iniciar a "discussão" do dote a ser pago pelo noivo.

Isso mesmo! O dote ainda é parte essencial na união, que se dá não apenas entre duas pessoas, mas entre duas famílias. A família da noiva irá exaltar as qualidades da moça e normalmente irá recusar as primeiras ofertas até chegarem no valor ideal - que já havia sido previamente combinado - e entregarem os demais objetos. 

Após este momento, as famílias se apresentam e inicia-se uma longa descrição da origem dos noivos e de seus antepassados, para verificar possíveis laços de sangue que inviabilizariam o casamento.


Dote negociado, presentes dados e antepassados esclarecidos entre as famílias, músicas e danças acompanham a entrada dos noivos. O orador faz a esperada pergunta à noiva, que, aceitando, receberá a aliança, uma joia e deverá se juntar à família do noivo, curvando-se perante seu sogro, que a partir de então será o seu novo pai.


E enfim começa a festa!

O dote

A composição do dote varia de uma etnia a outra e dependerá principalmente da situação econômica das famílias. Normalmente incluirá dinheiro e objetos como tecidos, panelas e bebidas, mas vale tudo! Hoje em dia anda comum incluir no dote TVs de tela plana e carros. 

O pagamento do dote representa o tamanho da perda que a moça representará para a família e todo investimento que nela foi feito durante sua formação. Serve também como uma forma de representação da obediência feminina ao homem. A aprovação do valor do dote pela família da noiva é crucial para que haja casamento. 

O dinheiro será divido entre os principais familiares da noiva (pai, mãe, avós, tios e irmãos). Ouve-se que a média do valor do dote é de 1 milhão de francos centro-africanos atualmente, cerca de 4 mil reais.

Um gabonês casando-se com uma estrangeira de cultura que não exija o dote está livre de pagá-lo. Caso uma gabonesa case com um estrangeiro, esse deverá realizar o ritual.

Se por algum motivo a mulher deixar o lar, seja por divórcio ou morte, antes de ter um filho, a família da noiva deve devolver o valor do dote ao marido.




Particularidades das relações familiares tradicionais
  • Do ponto de vista social, o casamento civil é menos importante que o casamento tradicional e o pagamento do dote.
  • O dote foi proibido pelo Código Civil em 1963, porém continua a fazer parte da sociedade, dos costumes e das relações humanas do Gabão. 
  • É possível que homem e mulher vivam juntos e tenham filhos antes da oficialização do dote, uma prática comum mas que não agrada as famílias.
  • O casamento civil é permitido para mulheres acima de 15 anos e homens acima dos 18 anos. 
  • A poligamia é legalmente aceita pelo Código Civil Gabonês, caso a primeira esposa também concorde. 
  • No Gabão, a poligamia é baseada em fatores econômicos, reprodutivos e políticos, não religiosos.
  • O homem poderá casar-se com mais de uma mulher, tanto no mesmo dia ou ao longo dos anos, tanto pela tradição quanto pelo direito civil do país. 
  • As famílias poligâmicas poderão viver na mesma casa ou em casas separadas.
  • O casamento poligâmico, no entanto, é uma opção, feita pela mulher na hora do casamento civil.
  • Quando a mulher opta pelo casamento monogâmico e o homem ainda assim casa com outra esposa, ela poderá processá-lo por bigamia, pedir a nulidade do segundo casamento ou o divórcio. 
  • Os filhos dos casais poligâmicos são criados pelo pai e por todas as suas esposas, sem distinção. Os filhos, no entanto, pertencem ao pai. 
  • O sexo não é proibido antes do casamento. Caso uma mulher solteira engravide de um homem já casado, o filho pertencerá, pela tradição, à família da mãe.
  • Antigamente a infertilidade era considerada causa legítima para a dissolução do casamento. 
  • Se uma mulher comete adultério e engravida, a criança vai pertencer ao marido que pagou o dote, caso ele assim o deseje, pela tradição. Se ainda não houve o pagamento do dote, a criança pertencerá ao pai ou ao irmão da mulher. 
  • Em caso de morte do marido, pagador do dote, a viúva pode ser dada como esposa para o irmão mais novo do falecido. Caso ela se case com outro, perde todos os direitos de herança.
  • A legislação também prevê a igualdade dos gêneros, mas a luta por fazer valer os direitos da mulher está no começo de um longo percurso. 


A complexidade das relações tradicionais e as discriminações de gênero dela decorrentes são foco de trabalho do governo do Gabão, da ONU e de diversas ONGs. 

O governo do país tem sido pró-ativo no tema, criando mecanismos de ajuda aos órfãos e viúvas e projetos de lei para a revisão de disposições do Código Civil e do Código da Segurança Social. 

A primeira-dama Sylvia Bongo Ondimba criou uma fundação com seu nome que luta pelo direito das viúvas e dos órfãos. Esse movimento transformou-se em uma das bandeiras do novo governo gabonês, do presidente Ali Bongo Ondimba, que levou à ONU a proposta, aceita após votação na Assembleia Geral em 2010, de transformar o dia 23 de junho no Dia Internacional da Viúva