quarta-feira, 23 de maio de 2012

Falando em tecidos...

Fazer este blog tem me feito notar coisas que eu normalmente não notaria. Além disso, tenho cada vez mais percebido que escrever é uma arte! É difícil reler suas próprias produções depois do calor do momento; sempre quero mudar algo, incluir, tirar, enfim... Peço desculpas pelos errinhos e espero continuar passando a vocês esta experiência da forma mais clara, leve e objetiva possível. 

Falando na arte da escrita, lembrei da contracapa de um livro que ganhei da querida diplomatriz Carollina Tavares, que diz: "O escritor não é alguém que vê coisas que ninguém mais vê. O que ele simplesmente faz é iluminar com os seus olhos aquilo que todos veem sem se dar conta disso. (...) para que o mundo já conhecido seja de novo conhecido como nunca foi." (Rubem Alves)


Na África, descobri que a escrita pode ter milhares de formas e cores! Aqui, até o estampado de uma roupa é uma forma de expressão. A estampa fala por si só, cada uma delas explicita um sentimento, uma situação, um nome, um provérbio... Uma mensagem que pode tratar das relações entre marido e mulher, entre a mulher e outras mulheres, sobre si ou sobre a comunidade. Ao vestir determinada estampa, a pessoa envia a mensagem desejada.




Um exemplo dessa "linguagem da roupa" são os símbolos "adinkra" (linguagem de ideogramas impressos, em padrões repetidos, sobre um tecido de algodão), por meio dos quais valores como a integridade, a paz e o amor são refletidos na vestimenta. A mesma coisa ocorre com as cores. O luto, por exemplo, é representado pela combinação entre o azul, o vermelho escuro, o marrom ou preto. O status de uma pessoa também pode ser revelado pela qualidade do tecido, o que, naturalmente, não é novidade para nós. Os símbolos adinkras foram desenvolvidos pelos Akan, grupo étnico presente em Gana, na Costa do Marfim e no Togo, países da África do Oeste. 




Nos casamentos tradicionais, ainda se utiliza o dote. Mas além da festa, o noivo deve dar tecidos à família da noiva. A quantidade representa o poder e a riqueza do noivo. Nesses casamentos, a noiva escolhe uma estampa e o noivo escolhe outra, com as quais os convidados de cada um confeccionam suas roupas. Assim, durante a festa, fica visível quem são os convidados da noiva e os convidados do noivo. Presentear com tecidos (em qualquer ocasião) também é de bom tom! 


Casamento tradicional no Gabão - fotos feitas pela brasileira Mirian Freitas.




Ainda sobre as vestimentas, aqui no Gabão é muito comum as pessoas utilizarem roupas tradicionais africanas no dia-a-dia, principalmente as mulheres. Elas usam vestidos longos e justos ou conjuntos de saias longas e blusas, também justas, frequentemente usando o "boubou" (lenço com diversas dobras na cabeça). 

Os cabelos estão sempre bem arrumados, com tranças que podem ou não ter apliques. As mais moderninhas (e com dinheiro) preferem usar a sua peruca com longas e belas madeixas! Sim! Perucas!!!! Quando eu cheguei, reparei nos cabelos por um bom tempo até descobrir que algumas usavam peruca e que a maioria delas utiliza a "tissage" ou aplique, como conhecemos.

Os homens usam ternos muito bem cortados e sapatos brilhantes de boa qualidade (os políticos e homens de negócio), os demais usam - sempre - calças e camisas, que podem ser de tecidos africanos. Nesse último caso, calça e camisa combinam, são da mesma estampa super-colorida.

Nas festas e eventos sociais, as africanas se vestem de forma extremamente elegante. Com muitas jóias, tecidos incríveis, bolsas, chapéus ou lenços de respeito e sapatos impecáveis. Nas boutiques, vi roupas desse tipo que chegam a custar cerca de R$ 2.000,00 - estilo africano, preço gabonês!





Gostaria muito de ter fotos dos tecidos daqui, assim com da moda gabonesa, mas aqui tirar fotos é quase um pecado. Ninguém gosta de ser fotografado sem autorização prévia, talvez pelas lendas do passado (a foto poderia ser usada em algum ritual de magia negra) ou mesmo por medo de ser estampado em alguma revista internacional que mostram as mazelas da África. Quem sabe, numa hora dessas, eu me sinto menos vigiada e tiro umas fotinhas para nós?!

No Gabão, particularmente, a questão religiosa está muito presente na cultura e deixou legado nos costumes: os mais antigos, por exemplo, costumam ter medo de entrar no mar. Eles acreditam que existem espíritos marítimos que podem trazer má sorte... 

Essa parte da história fica para um próximo post, com um pouco das famosas máscaras gabonesas (dos grupos étnicos Fang e Punu, entre outros), da religião nativa e algumas das estórias estranhas que rondam por aqui...

Finalizando, deixo um clipe de uma cantora gabonesa muito famosa, Patience Dabany. Ela é ex-mulher do ex-presidente Omar Bongo Ondimba e mãe do atual presidente Ali Bongo Ondimba, também músico.


On est ensemble!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Questões práticas

Os últimos dias foram cheios de atividades. Sempre surgindo coisas novas, felizes descobertas! Aconteceu de tudo, cafés com brasileiras, festa de premiação do "Club du Golf" na Embaixada da Espanha, comemoração da União Nacional da "République du Cameroun", café-da-manhã do grupo de mulheres estrangeiras de Libreville, aulas de francês e assim vai... 

Toda essa movimentação me deixou muito feliz pois, percebi (e outras pessoas também) que meu francês melhorou muito! Após apenas quase 2 meses já estou me comunicando bem, é uma vitória, não? Nada se compara ao aprendizado por imersão....

Aproveitando a agitada semana de eventos sociais, e a falta de tempo para terminar minhas pesquisas para o próximo post sobre a moda africana, lembrei-me que há umas semanas atrás eu enviei um e-mail para algumas amigas diplomatrizes que estão em Brasília. No e-mail eu comentava como estava sendo nossa adaptação e todas aquelas coisas boas de compartilhar com os amigos, porém, fiz questão de compartilhar com elas alguns dos meus novos conhecimentos a respeito da "etiqueta diplomática". Então, resolvi escrever sobre o tema.   

Eu, acostumada com as informalidades do setor privado, com o atraso das reuniões com aquela desculpa básica do trânsito, o atraso de entrega de projetos por "problemas técnicos" e aquela certa liberdade de tratar de temas e de explicitar sua opinião em discussões de reunião de equipe de trabalho, me deparei com as formalidades do protocolo diplomático, muito preciso e bastante pontual.

Ou seja, além de lidar com um mar de situações novas, ainda é preciso aprender algumas regrinhas básicas para não tropeçar na etiqueta. Claro que eu não vou expor aqui os nossos micos - poderia perder a credibilidade, hehe - mas quero compartilhar algumas impressões desse meu restrito universo de míseros 2 meses de experiência. 
Como sabemos, excessos são os maiores inimigos do sucesso. Excesso de gentileza, de silêncio, de conversa, de queixas, de elogios, de bebida, de cigarro, de comida... Equilíbrio é tudo! Mas, além disso, tem a parte "técnica". 

  • O convite. Leia com atenção. Todos os detalhes estarão descritos lá. É preciso se atentar, inclusive, ao que não está escrito!
  • O horário marcado no convite deve ser respeitado. Caso chegue 15 minutos mais tarde, vai perceber que todos já estarão lá e você terá mais pessoas para cumprimentar... O anfitrião também pode já não estar na porta.
  • Quando se diz traje esporte, não siga à risca indo com a camisa do seu time brasileiro e nem com seu "All-star azul de cano alto". 
  • Surpreendentemente, um convite escrito "gala" pode não significar vestido longo e smoking. 
  • O termo "roupa tradicional" em convites, serve para países que utilizam roupas especificas em sua cultura, como na África, Índia, os árabes e etc... 
  • Eventos que não explicitam o traje no convite são raros, mas já passamos por isso. Tente saber antes qual é o traje adequado, caso não seja possível, use o bom senso. Caso ainda assim não dê certo, use medidas de emergência ou entre no clima e sinta-se a vontade, mesmo sendo um estranho no ninho! rsrs 
  • Carro oficial. O diplomata deve sentar-se no banco de trás do passageiro e o acompanhante atrás do motorista - que irá abrir a porta para essa pessoa. A porta do diplomata será aberta pelo pessoal de recepção da festa. 
  • Ao chegar em uma recepção oficial, antes de cumprimentar qualquer outra pessoa, cumprimente os anfitriões. Cabe fazer elogios à dama e algum comentário (rápido) sobre a festa. E não esqueça de cumprimenta-los e agradecer ao sair! 
  • Não ache estranho ver homens africanos batendo a testa repetidas vezes - é o cumprimento entre aqueles que são amigos de longa data.
  • Casais nao precisam andar de mãos ou de braços dados. Um leve apoio das mãos masculinas nas costas da senhora já é suficiente! 
  • Cumprimente todos (possíveis) ao adentrar. Um aperto de mão basta. Dois beijinhos, apenas entre as mulheres já de seu convívio. 
  • Cuidado com os comentários sobre cultura, política e religião. Mesmo os mais sutis e ingênuos podem soar como uma ofensa. Seja agradável e tente conhecer de verdade os demais países.
  • Ao falar outra língua, certifique-se de que está usando os pronomes de tratamento corretamente. Use sempre a maneira mais formal para se referir aos presentes, especialmente em países francófonos! 
  • Sempre coma a refeição oferecida, principalmente na África! Aqui as pessoas não se preocupam com quem faz pratos montanhosos, mas sim com aqueles que não estão comendo. Já tentamos sair de uma festa sem comer pois tínhamos que seguir para outro compromisso, mas fomos pegos (em meio a cerca de 100 pessoas) e tivemos que voltar e comer! Rsrs.
  • Em eventos islâmicos, cabe às mulheres vestir algo mais discreto, cobrir os ombros e não usar decotes. 
  • Os muçulmanos mais religiosos costumam não comer carne (de nenhum tipo) em festas, pois não sabem como o animal foi abatido. Não é só carne de porco não!
  • Padres bebem vinho. 
  • Ao chegar no país, envie flores à sua embaixatriz. Caso ela chegue depois de você, também envie. 
  • E quanto ao famoso jantar que os recém-chegados deverão oferecer ao seu embaixador e embaixatriz e ainda outras 4 pessoas, conto-lhes mais tarde, estou na fase da organização.

Todas essas dicas (e com certeza muitas outras) podem parecer óbvias para quem está lendo ou para quem já vive ou viveu no meio diplomático, mas, para mim, e acho que para muitos outros, são detalhes que nos deixam meio perdidos no início. Mas percebe-se que toda etiqueta, protocolo tem um motivo: tornar a coisa mais fácil, organizada, clara e porque não, mais natural. De verdade! 

Etiqueta é ter conhecimento!



segunda-feira, 14 de maio de 2012

Desafios

Fiquei surpresa ao ver que após apenas um mês da divulgação do blog já alcançamos mais de 1.000 (mil) visualizações! O mapa dos acessos comprova que tem muita gente vendo, sentindo e vivendo novas experiências pelo mundo afora...

Isso fez-me lembrar do convite que fiz para a nossa festa de despedida de Brasília. Desde que li essa mensagem de Amyr Klink, ela ecoa em minha mente. Principalmente nos momentos em que as dificuldades do dia-a-dia aparecem.


Por falar em dificuldades do dia-a-dia, vou aproveitar e explicar um pouco melhor (a pedido da amiga Luiza Horta) quais foram e estão sendo as nossas principais dificuldades aqui em Libreville. Mas antes, gostaria de compartilhar o motivo de termos escolhido o Gabão para essa nossa primeira remoção. Ao final do post, deixo algumas dicas para aqueles que vão topar em breve sair para sua primeira missão ou que, por qualquer motivo, pensam em se aventurar em destinos menos conhecidos e familiares.

O Gabão nos chamou a atenção por diversos bons e inesperados motivos. Mais ou menos em ordem de prioridade, foram eles:

  1. Vontade de viver na África;
  2. País politicamente estável e seguro - foi preciso estudo, muito estudo para analisar as possibilidades de crises futuras (não temos um perfil excessivamente aventureiro...);
  3. País economicamente mais desenvolvido que a média da região (PIB per capita PPP de mais de US$ 16 mil, ainda mais em Libreville, enquanto o do Brasil é de cerca de US$ 12 mil);
  4. País de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) médio, o mais alto de toda África Subsaariana e um dos mais altos entre todos os postos disponíveis para as missões diplomáticas que foram oferecidas à turma 2010-2012 do Instituto Rio Branco.
  5. Cidade estruturada. Vídeos e fotos (youtube, google, blogs) da cidade mostravam que além da vantagem de ser uma cidade de praia, com uma bela vista e boas oportunidades de passeios e turismo, era uma cidade organizada, grande e asfaltada (!)
  6. Falar francês. O Cassiano queria viver em um país francófono, para adquirir fluência, e eu gostaria de aprender.

Então, se você está seguro das suas decisões, tudo se torna mais fácil! ;)

Vamos aos desafios, especificamente aqui para o Gabãozinho:

Aeroporto. Ao desembarcar no "Aéroport Léon Mba", antes mesmo da imigração, tem um balcão para a conferência das carteiras de vacinação. É obrigatória a vacina contra a febre-amarela. Achei o controle de entrada até mais rigoroso do que aquele dos Estados Unidos. Os policiais não são exatamente cordiais. A entrada no país também exige visto (exceto para passaportes diplomáticos). Mesmo que eu estivesse vindo de Johannesburg (África do Sul), foi aqui que eu me senti entrando realmente na África. Saímos do Brasil com 5 malas, mas chegamos aqui com 6 e não por consumismo. Foi porque tivemos que comprar uma mala extra no aeroporto (ainda em Curitiba) para dividir o peso, o máximo são 32 kg por mala - sem negociação.

Clima. Depois da experiência do aeroporto veio a adaptação ao clima. O calor era algo que me incomodava, mas vejam bem: era. Pois, em todos lugares há ar condicionado e hoje (depois de quase 2 meses aqui), suporto o calor com mais tranquilidade. A mínima média é de 23 graus e a máxima de 29 graus.

Ritmo da cidade. Entrar no ritmo das coisas, das pessoas, do cotidiano leva tempo e demanda paciência. Essa é uma parte difícil. Ao meio dia diversos estabelecimentos comerciais fecham para a sieste e retornam às 15 horas, outros abrem às 9 horas e encerram às 16 horas... Não existe uma regra muito clara. Então você precisa estar sempre alerta para horários. Domingo, quase nada abre.

Água e Luz. Considerando que os estrangeiros vêm em geral em circunstâncias financeiras favoráveis, é possível encontrar imóveis com geradores de energia e bomba d'água, o que torna a vida completamente normal. Caso o prédio/casa não tenha gerador, pode-se ter algum problema em determinadas épocas. No momento, tudo está normal. As pessoas dizem que, em geral, os serviços funcionam bem.

Internet. Mesma situação. É caríssima e mais lenta (1MB), considerando os padrões brasileiros. Mas existe e não chega a irritar pela lentidão.  Problema com o servidor eventualmente acontecem, no entanto, e isso pode irritar muito aqueles que não podem ficar 1 dia sem acessar a rede. No momento, nossa rede acusa cerca de 256 kbps de velocidade, o que a gente usava no Brasil há uns 4 anos atrás (acho).

Telefone celular. São em geral no modo pré-pago, porém as ligações são baratas. Ligar para o Brasil é barato. A dificuldade está em não esquecer de comprar créditos! Funciona a internet pelo celular, mas na versão EDGE (mais ou menos equivalente a um "2,5G").

TV. Saímos do hotel que oferecia míseras opções de canais e agora estamos em um apartamento (ainda provisório) com TV a cabo http://www.canalplus-afrique.com/. Muito tranquilo! Tem tudo e até radio latina e novela da globo! Uns 100 canais!



Imóveis. Aqui em Libreville sofre-se com a falta de ofertas. Muitos prédios, porém, estão sendo construídos, com instalações modernas. Nós procuramos muito e encontramos um apartamento, porém, o prédio está sendo finalizado e nos mudaremos para lá em julho (quando nossa mudança já deve ter chegado aqui - eu espero!) Abaixo fotos do apartamento que moramos, e do nosso futuro prédio - que está sendo finalizado.



Compras. Sistema bancário incipiente, portanto, compras quase sempre em dinheiro. Existe uma grande desconfiança em relação ao cartão de crédito. Existem poucos lugares com as maquininhas, onipresentes no Brasil. Chega-se ao ponto - em alguns lugares - de ser necessário preencher uma ficha e fazer uma declaração manuscrita de que será feito o pagamento. Ah, e não se esqueça de, antes de sair de uma loja, mostrar o comprovante de suas compras para o segurança. Caso não faça isso, ele vai ficar gritando para que você volte. Até que eu entendesse que era para fazer isso, já estava a loja toda me olhando! Nunca mais esqueci de mostrar meus recibos! Haha.

Saúde. Temos nos precavido bastante. Lavado bem as frutas e legumes. Cozinhando bem os alimentos, tomando água mineral e cozinhando com ela. Não saindo à noite (para lugares abertos) sem repelente. Tem boas clínicas, dentistas, muitos franceses. Quando alguém está com malária (muito comum), basta tomar os medicamentos que existem aos montes por aqui e alguns dias de repouso e todo mundo fica bem.  O segredo é que, ao sentir os sintomas, as pessoas sabem identificar rapidamente a doença. Em alguns casos pode-se ficar internado, mas a maioria das pessoas se trata em casa.  Tem muitas farmácias pela cidade, sempre as vejo abertas mas não garanto que sejam 24 horas.

Transporte. É preciso comprar um carro ou se acostumar a andar nos taxis mal cheirosos. Passagens aéreas  para outros países são caríssimas, pela falta de demanda e pelas poucas opções de rotas. Aqui tem voos diretos para Paris, Frankfurt, Jo'burg, Casablanca, Adis Abeba e mais algumas capitais africanas das cercanias.
Gasolina é mais barata que no Brasil. Ir para o interior acho que é um desafio. No interior existem parques nacionais e lindas reservas, há um trem que faz o percurso e o problema é que ele pode atrasar muito (ouvi relatos de atrasos de 6 horas) e nem quero pensar no caso do trem quebrar no meio do caminho. Muita gente faz o percurso de carro (precisa ser um 4x4), mas também prefiro não pensar no caso de o carro pifar no trajeto... quando nós formos (?) eu conto para vocês.

Produtos. Mais uma vez: caros. Os estrangeiros, costumam viver bem aqui. Carnes paraguaias, argentinas e brasileiras.

Serviços domésticos. Tem muita gente querendo trabalhar! Muitas faxineiras, cozinheiros, jardineiros, motoristas, mordomos, seguranças... São africanos de outros países que imigraram para Libreville em busca de trabalho, assim são pessoas muito prestativas e gentis. Não cobram muito caro e é um serviço de qualidade. Como na Europa ou nos EUA, os gaboneses não fazem mais trabalhos manuais, tudo fica com os imigrantes.

Relacionamentos. Aqui existem muitos europeus e chineses, mas em especial franceses, que desde a colonização mantêm forte relacionamento econômico e político com o Gabão. Sendo assim, como em qualquer lugar, o colonizado não vê com muito bons olhos o colonizador, mas as relações fluem quase que normalmente. É muito importante mostrar gentilezas, sorrir, ser simpático e aí, em poucos dias você já tem um amigo e alguém de confiança. Uma moça que trabalha aqui, no nosso apartamento, não foi muito simpática comigo nos primeiros dias, mas aos poucos eu fui conversando com ela e, agora, depois de uma semana, ela já está muito mais solícita e me ajudando muito com o francês.
Existe também a classe alta gabonesa. E é numerosa... Já vimos Ferraris novas e aqueles Porsche Cayenne são super comuns.

Língua. Eu ainda estou engatinhando com o francês, mas já consigo fazer tudo que preciso. O problema é que existe o francês e o "français du quartier" (do bairro). Então, não ache que fazendo seu "cursinho na Aliança Francesa" você vai conseguir se virar na rua... ahahaha. É um pouco difícil, mas seus ouvidos vão se acostumando... Eu já saio dirigindo por aí e falando com o pessoal! Já tenho amigos pela cidade... um florista, uma vendedora de loja, um ajudante do mercado...

Para os marinheiros de primeira viagem, aí vão umas dicas:
  • Para saber mais sobre como é realmente uma cidade, não busque apenas fotos e sites (diversas fotos estavam desatualizadas e quase não existem sites por aqui). Procure por vídeos no YouTube feitos em carros, taxis pela cidade. Dá uma visão bem mais próxima da realidade. 
  • Leve em sua bagagem livros, filmes e uma boa discografia. Os livros que eu trouxe eu já terminei e agora, para ler, só em francês... e nada da minha bagagem chegar!
  • Se sua mudança está indo de navio, se prepare para passar bons meses sem ela! Retiraram da nossa casa - em Brasília - dia 29 de fevereiro e até agora não sabemos quando vai chegar. O prazo era 60 dias, mas estamos chegando nos 90...
  • Leve suas principais roupas, não mande tudo por container. Um pouco de tudo é necessário! Praia, piscina, academia, festas, festas, festas...
  • Estar preparada para o pior é sempre melhor... a estadia se torna mais agradável. =)

Aprendendo...

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Explicando o termo Diplomatrizzando

No dia em que eu e o Cassiano nos conhecemos (16/05/2003) conversamos sobre os anseios futuros, e o plano dele era entrar para a carreira diplomática. Quando este plano tornou-se mais próximo de se tornar possível, ele ainda tentando o concurso, despendíamos horas pesquisando sobre a carreira e todas as suas possibilidades. Em diversos fóruns de discussão a pergunta "o que fazem as esposas dos diplomatas" era frequente e nenhuma das respostas era satisfatória, precisa ou que chegasse no mínimo próximo de algo que pudesse ser visualizado com clareza. Também procurei por livros, entrevistas e etc... nada satisfatório. Restou-me viver a experiência para saber ao certo do que isso se tratava. E logo tive notícia sobre o termo Diplomatriz. Surgiu a idéia do "Diplomatrizzando"!

No primeiro momento pode parecer que o título do blog "Diplomatrizzando" é uma espécie de plágio ao blog do diplomata Paulo Roberto de Almeida http://diplomatizzando.blogspot.com/ , que trata há muitos anos e com pioneirismo sobre política, relações internacionais e demais temas socio-econômicos mundiais. Mas o título e os assuntos a serem abordados aqui pouco tem a ver com o blog do respeitado diplomata.  A intenção aqui não é fazer nenhuma sátira, alusão e também não é tratar de temas das relações internacionais, por mais que eu seja diplomada nesta ciência.

Na verdade, meu primeiro contato com o termo "diplomatrizzando" se deu através do blog http://jovensdiplomatas.wordpress.com/, em um dos posts de Eduardo Mello. Posteriormente, ouvi o termo em diversas rodas de amigos, em Brasília. Não fui a fundo buscar saber quem foi o(a) criador(a) do termo - o qual interpreto resumidamente abaixo e ao longo de todo o blog.  Mas fiquem à vontade para comentar e dar dicas de quem poderia ter sido o(a) gentil criador(a)!

Em suma, o termo pode ser explicado assim:

Embaixatriz - esposa do Embaixador
Diplomatriz - esposa do Diplomata

Vocês podem imaginar a dificuldade para uma mulher casada com um diplomata, formada, pós-graduada, com atividade profissional ativa e em ascensão não conseguir conciliar sua carreira e tornar-se simplesmente "esposa do diplomata"- sim, é esta a "profissão"que consta no passaporte diplomático e nos demais documentos de identificação do MRE e das demais Chancelarias mundo a fora.

Essa situação, NO MÍNIMO, representa submissão e dependência da cônjuge. Maior ainda foi meu susto (e de outras diplomatrizes) ao saber que não são todos os países em que é possível que a esposa do diplomata exerça função remunerada, apenas naqueles com os quais o Brasil possui acordo específico para isso.

A questão é ainda mais profunda que a simples descrição da profissão nos documentos oficiais, envolve auto-estima, valorização, respeito. Muitas vezes somos tratadas por alguns homens e - mais incrível e principalmente - por algumas mulheres da carreira apenas como "esposas dos diplomatas", sem nome, sem profissão e confundidas com o estereótipo da dona de casa: sem opinião crítica, sem informação, aquela que apenas sabe servir belos jantares e tomar o chá das cinco... Aquela mesma de tantas décadas passadas, por cuja libertação da opressão nossas avós e mães lutaram.

...Ou ainda pensam em nós como espécies de personagens, repetindo as conhecidas histórias de "Clarices e Marinas"... (Clarice Lispector era escritora, foi esposa de diplomata mas se divorciou e, no fim de sua vida, apresentava quadros de depressão; Marina, personagem do livro "O Punho e a Renda", cansada das badalações sociais e do descaso, buscou refúgio nas drogas).

Ser diplomatriz é estar segura das suas escolhas e ser feliz com elas; é saber de culinária, moda, arte, etiqueta, mas também de política, economia, administração, história, geografia, engenharia, nutrição, biologia... e ainda ter a capacidade de tornar as constantes mudanças mais leves e divertidas! É aquela que sabe ser feliz em qualquer lugar, independente da sua profissão, pois sabe que está cumprindo um papel importante para a família e para o país. Minha recente experiência (vou contando nos próximos posts) mostra que as(os) cônjuges que acompanham o(a) diplomata nessa carreira são essenciais para uma experiência mais completa. É aquela ou aquele que tem coragem de paralizar sua carreira e seus sonhos primários, se isso for necessário, para fazer algo tão satisfatório quanto. É fazer e refazer sonhos constantemente, sendo plena(o) e feliz com isso!

A situação pode ser ainda mais complexa se pensarmos na diversidade do tipo de relações familiares possíveis. Como ficaria no caso de ser UMA diplomata e seu marido? E no caso dos casais homossexuais? Como equilibrar família, vida pessoal e profissional? É possível fazer isso sem que alguém seja penalizado, frustrado por isso?

Aqui, quero mostrar que ser Diplomatriz é mais que simplesmente acompanhar seu marido pelo mundo, servir jantares e falar da moda parisiense. Quero mostrar que a mulher, o ser humano (em qualquer função/atividade/profissão) merece respeito e reconhecimento pelo seu papel. Seja ela presidente, diplomata ou a mesmo aquela que deixou sua vida profissional para também representar o Brasil. Que temos um papel legítimo, bonito, verdadeiro e que podemos ser felizes com nossas escolhas!

Parafraseando o discurso de formatura da Turma Milena de Medeiros 2010-2012: "Não podemos aceitar essa discrepância como dado"... [Devemos] "ser capazes de nos adaptar aos novos tempos!"

Dedico esse post às(aos) amigas(os) diplomatrizes (os): Marcelo Maio, Priscila Rocha, Taísa Felix, Lívia Bergamaschine e tantas(os) outras(os) mais!

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Fotos de Libreville

Agora que temos carro, consegui tirar umas fotos da cidade!