quarta-feira, 25 de julho de 2012

Reinventando

Hoje nosso blog ultrapassou 4 mil acessos ao redor do mundo!!!!! Entre os países que se destacam pelos acessos estão: Brasil, Estados Unidos, França, Rússia, Alemanha, Moçambique, Portugal, Angola e Reino Unido! Fico feliz em estar compartilhando estes momentos com tantas pessoas! Obrigada!

Ah, para aqueles que seguem o blog, vocês notaram algumas pequenas mudanças no layout? Pois é, agora é possível compartilhar o blog com mais facilidade nas redes sociais, fazer pesquisas com palavras-chave, seguir via e-mail ou mesmo ativar a ferramenta do Google Translator. Também é possível avaliar cada novo post e claro, postar comentários! Aliás, adoro receber os comentários e as impressões de vocês sobre cada post, é super motivante!

Bom, vamos ao que interessa: em Libreville segue o ritmo de férias. Os europeus - que são muitos aqui - voltaram aos seus países para desfrutar as férias de verão e, assim, até os compromissos diplomáticos diminuem. Os gaboneses costumam viajar para o interior do país e passar as férias com suas famílias, que ainda permanecem nos vilarejos. Como aqui não existem nem shoppings, nem cinemas, nem teatros, ocupamos nosso tempo com atividades mais caseiras, indo a restaurantes, passeando pela beira-mar, lendo, programando viagens e nos dedicando a alguns projetos pessoais.

Para quem, algum dia, vier conhecer o país, encontrará todos os melhores serviços da cidade no guia Le Pratique du Gabon, que possui edições anuais. Não saímos de casa sem ele! Existem algumas opções de lazer. O Instituto Francês promove muitos eventos, exposições, apresentações. As piscinas dos hotéis e clubes podem ser frequentadas pagando uma taxa simbólica, pode-se realizar passeios nos mercados artesanais, curtas viagens para visitar pontos turísticos da região (Reserve de la Lopé, Point Denis, Parques Nacionais) ou mesmo parar em uma barraca da praia e observar este lindo pôr-do-sol, que eu não canso de fotografar:


Libreville conta com uma embaixada brasileira que, apesar de super-ativa, é relativamente pequena e tranquila, com apenas quatro funcionários locais/do quadro do Serviço Exterior além dos dois diplomatas (Secretário e Embaixador). Os negócios das empresas de nosso país aqui ainda estão deslanchando, então a comunidade brasileira permanente não é grande no momento, menos de 100 pessoas. Vale lembrar que estamos falando de um país de 1,5 milhão de pessoas, ou seja, uma população mais ou menos igual à do Tocantins.

No último sábado, no entanto, o Vice-Presidente, Michel Temer, deu uma passadinha por aqui. Foi depois de ter ido à Maputo, para a Cúpula da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP. Foi agendada uma escala técnica para reabastecer a aeronave, mas quando se trata de um Vice-Presidente brasileiro na África, qualquer "paradinha" já é motivo pra holofotes e agitação. O pequeno time da embaixada brasileira precisou começar a se organizar alguns dias antes: solicitar permissão para pouso à aeronáutica gabonesa, acertar tudo com o protocolo de Estado, providenciar a recepção em sala mega-VIP e também organizar o encontro com o representante do governo gabonês, que nesse caso foi o Chanceler. Mas essa movimentação toda foi ótima, pois assim nos sentimos um pouco mais próximos do nosso Brasilzão!


Os mais cosmopolitas devem pensar que seria um tédio viver aqui (sem teatro, sem cinema...), eu mesma pensaria isso... Felizmente, o ser humano é o ser vivo mais adaptável que existe e assim vamos nos reinventando e aproveitando o melhor dessa experiência riquíssima, vendo e vivendo!

"Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada."
Cecília Meireles

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O lado B de Libreville

Todos sabem que estamos adorando o Gabãozinho e que o país tem muitos pontos positivos, muito mais do que esperávamos. Mas morar aqui, infelizmente, também é conviver com problemas, com as palavras "doença", "corrupção", "morte"... "descaso". A essência dos fatos nós conhecemos bem no Brasil mas, por algum motivo, na África essas palavras se tornam ainda mais pesadas e, frequentemente, inaceitáveis.

É preciso um "quê" extra de calma, força e prudência, pois os problemas podem ser graves. Vou lhes contar algumas situações que ouvi, presenciei, li...

1 - Certo dia, ficamos sabendo que uma menina de 14 anos fora estuprada perto de sua casa. Após o fato, quando retornava ao seu lar (acompanhada de algumas amigas que, desesperadas, faziam uma grande confusão), ela foi vista pelo seu pai, que logo se inteirou do ocorrido. Quando entraram em casa, o que aconteceu? Ele a pegou nos braços, cuidou dela? Não, ele simplesmente a espancou. Isso pois ele teria dito a ela para "não sair de casa" e, provavelmente, porque tinha aquele sentimento machista de que o estupro sempre é um pouco "por culpa da mulher"... Não satisfeito, cortou os cabelos dela. A mãe, pelo que ficamos sabendo, chegou do trabalho, viu a filha na cama, machucada, traumatizada mas, em vez de cuidar dela, mandou-a para a casa de uma tia, onde a deixou por uns dias, sem falar com ela. O estuprador, por fim, foi preso, mas para que ele continuasse na cadeia e a polícia seguisse a investigar se ele cometeu outros crimes, a família teve de deixar un coca (dinheiro) para o pessoal da delegacia. A menina passou por uma perícia e somente quando o médico afirmou que ela era virgem antes do ocorrido é que a família realmente acreditou no que a menina vinha contando e voltou a falar com ela. Mas, sem dinheiro, ainda não teriam feito os exames de gravidez e HIV... Quanto ao trauma... Esse nem com todo dinheiro do mundo para curar.

2 - Eu já comentei em outro post que aqui os doentes mentais andam à solta, que não há capacidade para todos eles no único hospital psiquiátrico que existe. Há alguns dias, a pequena Imaculada, uma linda menininha equato-guineense de 4 anos, sobrinha de uma das moças que fazem a limpeza aqui em casa, foi pega por uma pessoa com problemas psiquiátricos graves e atirada ponte abaixo num viaduto de Libreville. Saiu na primeira página do jornal, triste manchete principal. Como ela era filha de estrangeiros pobres, o governo não pagou as despesas do funeral. Sorte que a embaixada da Guiné Equatorial se solidarizou e ajudou a família.

Malade et meurtrière, "doente e assassina". Como dizem por aqui: C'est la Gabonitude, hã?!

3 - Outro dia, uma amiga foi parada, em seu carro, por dois policiais em uma das ruelas da cidade, confusa e sem sinalização. Sem saber, ela havia entrado na contramão. Quando encostou o carro, os policiais pediram seus documentos em um tom autoritário. Enquanto ela os apresentava e gastava seu francês se explicando e se desculpando (ela também não-francófona), tomava o que classificou como "a maior bronca dos últimos tempos". Depois de alguns minutos de censuras públicas cheias de gestos (por ter entrado na contramão!), o policial entrou no seu carro, sentou-se no banco do passageiro, ao seu lado e informou que a multa seria de 48 mil francos (cerca de 96 dólares) para pagamento imediato. Sentindo-se completamente vulnerável, ela pagou o valor, pegou seu documento, levou outra bronca do tipo nunca mais faça isso e foi embora sem recibo e com muitas pessoas observando toda a movimentação. Corrupção deslavada. Vergonha.

4 - Tem também a questão do excesso de crendice. A fé tradicional africana tem alguns aspectos socialmente construtivos, assim como as religiões ocidentais. Mas em muitos momentos, a coisa toma proporções exageradas. Um exemplo foi um programa de TV que vimos esses dias, em que se debatia se os AVCs teriam causas místicas. Ao final do debate, o consenso era de que SIM, derrames seriam geralmente causados por bruxaria e que, por isso mesmo, seria importante promulgar uma lei para por na cadeia "bruxos" que comprovadamente causassem derrames ou outras doenças, como cânceres. Pode? Inquisição, versão século XXI.

Quero ver como eles iriam fazer essa comprovação... E infelizmente a população acredita demais em macumba, a ponto de chegarmos aos terríveis "crimes rituais", quando pessoas são assassinadas para que seus órgãos sejam usados em rituais de magia negra. Segundo a "Association de Lutte Contre les Crimes Rituels" do Gabão, quase 50 pessoas são assassinadas ao ano, o dobro se for ano de eleição... Mas a esse assunto eu retornarei em breve.

sábado, 14 de julho de 2012

O lado A de Libreville

Libreville foi sede do evento "Class 1 World Powerboat", Fórmula 1 dos mares. As próximas edições serão na Itália, Dubai e Abu Dhabi. Consegui tirar umas fotos na abertura do evento e esperava tirar mais algumas no terceiro dia, que seria hoje - sábado - porém, na corrida de ontem um dos barcos sofreu um acidente e o piloto acabou falecendo e o evento foi cancelado.















segunda-feira, 9 de julho de 2012

Férias e feira

Aos poucos a vida vai retomando seu curso aqui em Libreville. E quando eu digo "o seu curso aqui em Libreville" é porque realmente sinto que cada lugar tem o seu ritmo, seus atalhos, seus sustos... Nos últimos dias, fiquei a observar a cidade, as pessoas, o clima.

O clima está mais fresco do que quando chegamos aqui em meados de março. À noite tem-se uma refrescante brisa do mar e mesmo nos dias em que o sol está mais encoberto pelas nuvens dá para sentir um ventinho no estilo outono brasileiro! Está bem agradável. 

Aqui, segue-se o calendário francês. Então, estamos em plenas férias de verão. A cidade fica um pouco mais vazia. Mas parece-me que a população que precisa permanecer na cidade aproveita um pouco mais a praia!






E eu também! rsrsrs

Temos descoberto bons lugares para aproveitar o final de semana. Neste fomos a uma feira de produtos de Ruanda. Gostamos muito do café produzido por lá e da macadâmia - ambos muito saborosos! Compramos também farinha de mandioca, cuja técnica de aprimoramento da produção eles aprenderam com o Brasil, como nos explicou o expositor sem saber de onde nós erámos. Agora eles produzem muito bem a mandioca em toda a região. Quando dissemos que éramos brasileiros, foi uma festa!


Ainda lembro que eu me emocionei muito ao assistir o filme Hotel Ruanda e analisar o caso nas aulas de Direitos Humanos, e foi, portanto, muito legal conhecer um pouquinho melhor esse povo, que tanto sofreu com o genocídio nos anos 90 e tem surpreendido o mundo com a sua rápida reestruturação e desenvolvimento.