sexta-feira, 24 de agosto de 2012

African Print

O guarda-roupas africano entrou na moda! Além das já conhecidas oncinhas e zebras, agora as alegres estamparias africanas estão caindo no gosto do mundo fashion. Elas estão em saias, vestidos, casacos, lenços, bolsas, etc... Além das passarelas, várias celebridades andam desfilando seus modelitos por aí!




                                                                     


Ops!

Por mais que hoje não consigamos pensar na África sem suas coloridas estampas, o mais incrível é que elas não são completamente originárias daqui. Elas teriam sido trazidas da Indonésia, onde são conhecidas como batiks, pelos holandeses, exímios comerciantes que colonizavam aquela região (a qual chamavam de "Índias Orientais". 

A empresa VLISCO, criada em 1846 por Pieter Fentener van Vlissingen, produzia em escala industrial os batiks e vendia na Indonésia. Mas, os produtores locais inventaram uma técnica que deixava os tecidos muito baratos, o que tornou inviável a produção holandesa, que passou a buscar novos mercados. Os tecidos chegam à África em 1876, adaptam-se ao gosto local, popularizam-se e a empresa fez daqui o seu maior mercado até os dias de hoje. 


A marca virou grife luxuosa, produz peças com design exclusivos, lançando novas coleções a cada 3 meses. Atualmente, possui lojas próprias no Benim, Togo, Nigéria, na República Democrática do Congo e na Costa do Marfim, mas também pode-se encontrar tecidos da marca em diversos outros países africanos, como aqui no Gabão e claro, na Holanda.

Contam ainda que os tecidos podem ter chegado à África por meio dos comerciantes hindus ou mesmo por soldados africanos que teriam lutado na Indonésia entre 1800 e 1862 e retornado à África com a técnica.História à parte, o fato é que essas estampas tornaram-se o principal símbolo da moda e da cultura africana. No Brasil, é possível encontrar os tecidos africanos, principalmente na Bahia.

Com a popularização das estampas, surgem outros pólos de produção dos tecidos, principalmente na Nigéria, Gana, Benim e na China.  São 100% algodão e costumam não manchar. Caracterizando-se por estampas fortes e de cores vivas ou mesmo em tons bem escuros.

Aqui na África é fácil encontrar lojas com pilhas e pilhas de tecidos à venda por precinhos camaradas e mais fácil ainda será encontrar um costureiro que fará sua roupa com grande destreza! 


Eu prefiro os tecidos de estampas mais leves, como os da foto abaixo. São mais difíceis de encontrar, mas mesmo assim já tenho saia, vestido, blusinha e estou pensando em algo para o próximo tecido! 


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Festas Nacionais

Este ano a comemoração da Independência da República Gabonesa foi ainda maior. Pela primeira vez na história, o país ganhou uma medalha nos Jogos Olímpicos!

O atleta Anthony Obame conquistou medalha de prata no Taekwondo +80kg nos Jogos Olímpicos de Londres e fez o país inteiro ir às ruas recepcionar o mais novo orgulho da nação! E a cidade, que já estava decorada para festas nacionais, ficou ainda mais tricolor!





O Gabão se tornou independente da França em 17 de agosto de 1960. Todos os anos o governo promove uma série de comemorações durante o feriado que abrange os dias 15, 16 e 17: desfile militar, parada cultural e coquetéis.

Desfile Militar

 Tribuna do Corpo Diplomático


Parada Cultural





 Coquetel


Ainda, alguns dias antes (09/08) foi celebrado o Dia da Bandeira




Como diz o Hino Nacional Gabonês: "Finalmente é nosso crescimento em direção à felicidade!" (tradução livre)

Uni dans la Concorde et la fraternité,
Eveille toi Gabon, une aurore se lève,
Encourage l'ardeur qui vibre et nous soulève!
C'est enfin notre essor vers la félicité.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Brasil no Benim (ou Benim no Brasil)?


No último final de semana, colocamos o pé na estrada (mais propriamente no aeroporto, hehe), fomos rumo ao Benim, país da África do Oeste, vizinho da Nigéria e do ainda menos conhecido Togo. A capital, Cotonou, fica a 1h30min de voo de Libreville. Fomos pela companhia Air Burkina, que opera a Air Mali também (sim, aquele Mali que tá meio que em guerra civil...). O avião nos surpreendeu pela comodidade das poltronas (muito mais espaço que a Gol ou a Tam) e pelo serviço (atendimento e refeições de qualidade). Confesso que eu estava muito insegura quanto a fazer viagens de avião dentro da África, mas acabou sendo uma surpresa positiva. O avião não era novíssimo, mas estava acima de alguns que já viajei no Brasil (Varig, Webjet).



Fomos ao Benim antes de qualquer outro lugar na África (tirando a África do Sul) por alguns motivos: temos amigos queridos morando lá, tem voo direto e também por ser o "meio do caminho" para uma amiga próxima, que está morando em Acra, capital de Gana. Foi um encontro maravilhoso! Assunto não faltou, faltou foi tempo... 

Fomos muito bem recebidos na casa dos nossos queridos amigos João e Gabi. À noite tivemos a oportunidade de conhecer pessoalmente os maiores artistas plásticos do Benim, em uma recepção realizada na Residência do Brasil em Cotonou. Oportunidade na qual também pudemos conhecer empresários brasileiros que estão desenvolvendo negócios na região. Morando no exterior é sempre bom encontrar brasileiros, não é?!

Foi incrível perceber que as experiências de chegada foram muito parecidas para todos. Inclusive as diferenças culturais enfrentadas em cada uma dessas partes da África. Mais incrível ainda foi a oportunidade de ver de perto a história de um povo que acabou constituindo parte essencial do nosso Brasil.

O atual Benim, afinal, foi o reino de Daomé (o primeiro país a reconhecer a independência do Brasil), na "costa dos escravos": de lá saíram a maior parte dos prisioneiros de guerra africanos que foram vendidos aos portugueses, franceses e ingleses para serem "usados" como escravos no Brasil, Haiti, EUA e em outros lugares das Américas.

                                          Cotonou no alto         
                                          Rumo à cidade histórica de Ouidah
                                          Portal de entrada de Ouidah - Rota dos Escravos
                         Vestígios da presença dos ex-escravos brasileiros que voltaram ao Benim:
"Porta do Não-Retorno", memorial erigido pela UNESCO e pelo governo beninense no local onde os agora escravos se despediam para sempre de sua terra natal, rumo às Américas
                                          A Porta do Não-Retorno
Segundo a crença local, os cativos que partiriam para "os países dos brancos" deveriam rodar 3 vezes esta árvore, num ritual para garantir que suas almas, ao menos, retornassem à África, já que para seus corpos a viagem era sem volta.
Devido a esse ritual, os locais jamais comem os frutos desta árvore, pois seriam muito carregados de dor e sofrimento.
Os cativos, prisioneiros de guerra na verdade, eram comercializados por armas, álcool e tabaco pela etnia dominante, que fazia o "comércio" com os europeus. Um canhão valia 15 homens ou 21 mulheres.
Aqueles que morriam antes de embarcarem nos navios-negreiros eram considerados pessoas de sorte, pois seriam enterrados em sua própria terra. Este memorial foi erguido a esses.
O último embarque de escravos de Ouidah ocorreu provavelmente em 25 de março de 1862.




Visitar esses lugares e dar-me conta de que, não muitas gerações atrás, alguém da minha própria família certamente viveu essa situação (saindo do Benim ou de outra região da África) foi muito chocante. Não consegui conter as lágrimas...

E assim foi formada a base da sociedade brasileira: maltratada, arrancada de sua terra, vendida a troco de míseros cigarros ou armas, em um fenômeno que acabou há apenas cerca de 125 anos.

Por outro lado, foi importante conhecer o memorial (esse com o mapa da África) da reconciliação com a diáspora: os beninenses em diversas oportunidades reuniram afro-descendentes das Américas para pedir perdão e louvar os grandes feitos desses descendentes de africanos em países como o Brasil e o EUA, que eles tanto admiram. Foi muito importante ver que o Benim, ontem país da guerra e da escravidão, hoje é uma terra de democracia e crescimento, país da concórdia, perdão e acolhimento. Feliz sinal dos tempos.