quarta-feira, 14 de novembro de 2012

E os filhos?

Ainda não os tenho, mas tenho percebido que sua educação é o tema que mais preocupa quem os têm na hora de ir ao exterior. Tenho conhecido muitos expatriados com filhos em idade escolar e o consenso entre eles parece ser de que a parte mais difícil da expatriação é a questão da adaptação dos filhos ao novo país e o prosseguimento de sua formação escolar. O assunto é o "número um" na quantidade de preocupações e reclamações, seguido pela questão das dificuldades de adaptação de cônjuges que deixam suas vidas profissionais para seguirem a pessoa amada. Esses dois assuntos são responsáveis por grande parte das insatisfações, discussões e casos de fracasso na expatriação. Não estamos falando, afinal, de férias de fim de ano e nem de alguns meses conhecendo a cultura de um país... estamos falando de mudanças de anos e anos, estruturais. É a tentativa de se tentar manter viva sua cultura, língua e modo de vida em meio a mundos muito diferentes. 


Para este post, contei com a experiência da querida amiga Gabriela, também expatriada e mãe da Malu - linda, meiga e inteligentíssima - de 10 anos que já passa pelo seu segundo país na África!

Como a Gabriela me explicou, os pais devem sempre procurar a escola que possa deixar seu filho mais seguro, confortável e onde o choque cultural seja possivelmente menor, o que nem sempre significa a escolha mais óbvia (simplesmente por na escola mais cara que seu dinheiro possa pagar ou na mais renomada). Aqui no Gabão, os expatriados costumam optar pela escola americana ou pela escola francesa. Como o país é francófono, é comum que os não-provenientes da área francófona nem da área anglófona optem pela escola francesa, que poderá auxiliar na adaptação, facilitando a assimilação linguística e cultural.

Mesmo que seja uma grande mudança para as crianças, elas normalmente aprendem a falar outro idioma com grande facilidade. A existência de outros alunos ou de algum professor que fale a sua língua nativa, no entanto, facilita, deixa a criança mais tranquila nos primeiros dias e é algo a não se perder de vista durante a escolha.  Existem, porém, outros pontos que os pais devem estar atentos, como a questão de como conciliar currículos com os o do país de origem, quando se pensa em um retorno.

A Gabriela optou por matricular a Malu na escola francesa e também numa escola brasileira de ensino à distância. O programa do ensino à distância inclui todas as matérias de uma escola normal no Brasil, inclusive textos de Educação Física, fichamento de livros, exercícios e provas. A cada dois meses a Gabriela recebe o material de estudos e também envia - pelo correio expresso - os exercícios e as provas feitas pela Malu, que são corrigidas e avaliadas pela escola brasileira.

Cabe aos pais a responsabilidade de acompanhar de perto a evolução escolar dos filhos e verificar se a escola de ensino à distância está devidamente credenciada no MEC. Caso a família opte em não levar as duas escolas ao mesmo tempo e apenas validar o currículo ao voltar ao Brasil, é necessário verificar na Secretaria de Educação do seu Estado qual o procedimento a ser seguido.

Outro ponto importante é atentar-se ao fato de que o calendário escolar no Brasil é diferente da maioria dos países. Ao retornar ao Brasil, a criança vai precisar pular ou repetir um semestre. A grande vantagem do ensino à distância é que a criança vai estar seguindo o mesmo calendário do Brasil, sem ser prejudicada futuramente. E ainda ajuda a preservar suas raízes linguísticas e culturais!

É cansativo, no entanto, conciliar duas escolas ao mesmo tempo, tanto para os pais quanto para as crianças. Estas, naturalmente, costumam não perceber claramente a dimensão do esforço dos pais e da riquíssima bagagem que estão recebendo, percebendo, isso sim, a carga enorme de trabalho a que estão sendo submetidas. A família precisa, acima de tudo, ser o grande porto seguro da criança, pois tantas mudanças podem fazer com que ela se sinta deslocada no exterior e até mesmo no Brasil. 

Soma-se à isso as dificuldades e particularidades de cada país. Aqui no Gabão, por exemplo, não há parques de diversão, praças, cinemas, shoppings, grandes livrarias, bibliotecas ou atividades que colaborem na adaptação das crianças estrangeiras... Realmente, é outro mundo! 

É muito comum encontrarmos filhos que se comunicam com os pais em outra língua que não a originária da família (i.e. pais brasileiros que acabam se comunicando em francês com os filhos), ou que entendem a língua dos pais, mas não a falam e, ainda, os que, ao retornar ao Brasil, não conseguem entrar na universidade por não conseguirem escrever em português...

Resta aos pais lidar com mais este desafio da melhor maneira possível (isso que nem entramos na seara dos custos). Os que conseguem, no entanto, deixam aos filhos um legado multilinguístico e multicultural que só pode ser positivo.

Sobre este tema, indico: 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sobre Malária

Rodando pelo mundo acabamos ficando expostos à uma série de riscos, entre eles as questões de segurança e saúde são os mais delicados. Podemos tomar uma série de ações de prevenção no caso da saúde, como vacinas, medicamentos e etc, mas a melhor ainda é a informação! Sabemos que as condições para os funcionários do Serviço Exterior Brasileiro e suas famílias precisam evoluir - principalmente se comparadas às já adotadas por outros países, empresas privadas e organismos internacionais - enquanto não chegamos no ideal, o melhor é tomarmos algumas providências.

Morando aqui na África vi que é possível viver com tranquilidade, sem tanta neurose com os perigos da malária, basta seguir algumas recomendações importantes. Deixo abaixo um resuminho que fiz e que poderá ajudar a eliminar as primeiras dúvidas. Lembrando que o mais importante é prevenir e caso seja picado por algum mosquito é bom ficar bem alerta aos sintomas e aos procedimentos:

A malária é uma doença comum na África, transmitida através da picada de mosquito. A malária é mais comum do que gripe na África e casos de dengue praticamente não existem. Já houve casos de pessoas que voltaram da África ao Brasil com malária e os médicos acabaram confundindo com dengue e realizando o tratamento erroneamente...

Dicionário

Malária - português (Brasil)
Malaria - inglês
Paludismo/ Palu - demais países de língua portuguesa
Paludisme/Palu - francês

Prevenção

A atividade do mosquito "Anopheles", vetor da malária, concentra-se no crepúsculo e no amanhecer. Nesses horários, quando se encontrar ao ar livre, o viajante deve procurar vestir calças, camisas de mangas compridas e de cores claras, sapatos fechados e utilizar repelente de insetos. 
  • Repelentes com PERMETRINA em sua fórmula e ao menos 20% de DEET. Dica: repelente AUTAN. No Brasil existe a marca EXPOSIS - http://www.exposis.com.br
  • Use mosquiteiros para dormir e certifique-se de que dentro dele está livre de mosquitos. Mosquiteiros são de fácil acesso na África e normalmente possuem permetrina também, que afasta os mosquitos. 
  • Feche janelas do quarto antes do anoitecer e, caso tenha, ligue o ar condicionado. 
  • Compre um inseticida, nem sempre os hotéis detetizam os quartos diariamente. 
Sintomas

Os sintomas da malária são muito parecidos aos da gripe: febre alta, dores musculares e nas articulações, calafrios, suor, dores de cabeça e às vezes vômitos e náuseas. Ao sentir algum destes sintomas vá ao medico imediatamente. 

OBS: NÃO TOME NENHUM OUTRO MEDICAMENTO ANTES DE REALIZAR O TESTE DE MALÁRIA. OUTROS MEDICAMENTOS PODEM MASCARAR OS SINTOMAS E AVANÇAR A DOENÇA, FICANDO MAIS DIFÍCIL O TRATAMENTO.

Teste de malária

Toda clínica/hospital/laboratórios realizam o teste da malária. É um exame de sangue e normalmente o resultado é dado na mesma hora. Todo médico na África conhece bem os medicamentos para o tratamento, siga rigorosamente as instruções.

Medicamento

Toda farmácia na África tem remédio para malária, no Brasil é raríssimo. Existem vários medicamentos, com formas de tomar diferente e que dependem da idade, peso e do quanto a doença já avançou em cada paciente. Algumas vezes, quando já está um pouco mais avançada a pessoa precisa ficar no hospital tomando soro e sob observação. 
Dica de remédio para a malária: COARTEM - seguir rigorosamente as instruções da bula.

Obs: Compre na sua chegada ao país e leve com você - na bagagem de mão - em sua viagem de volta. Ao retornar de viagem e sentir algum desses sintomas, avise seu médico que esteve em área de risco de malária. Os sintomas às vezes aparecem até mesmo meses após o contato com o mosquito transmissor. Guarde os remédios em local de fácil acesso e mostre ao seu médico.

Vacinas

Não existe vacina para malária. Apenas o tratamento da doença, que é muito eficaz se iniciado o estágio inicial da doença. Prevenindo outras doenças: cerca de 45 dias antes da viagem verifique e priorize as seguintes vacinas: 

- Febre Amarela
- Febre tifóide
- Difteria e tétano
- Hepatite A+B

Outros cuidados
  • Tome apenas água mineral engarrafada
  • Tenha quantia em dinheiro na moeda local. Vários países da África não aceitam cartão de crédito ou débito em diversos estabelecimentos, inclusive em hospitais.
  • Não permanecer em locais com mosquitos (bares, restaurantes) principalmente durante a noite.
É uma doença grave mas que se tratada logo no início é totalmente contornável. Em nossa estadia de 2 anos na África nunca pegamos malária e pouquíssimos de nossos conhecidos tiveram a doença. Os que tiveram a doença foram imediatamente medicados sem nenhuma complicação mais séria.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Haja coragem

Muitos são os desafios para aqueles que aceitam a missão (no sentido mais amplo da palavra) de trabalhar em postos D, os mais difíceis do serviço exterior brasileiro.

Mais um caso extremo infelizmente aconteceu. A Assistente de Chancelaria Berenice Ferreira faleceu de malária e febre tifóide nesta semana. Ela estava em missão em Malabo, na Guiné Equatorial, país vizinho aqui do Gabão. Assim como a diplomata Milena Medeiros, ela faleceu em virtude do agravamento do seu quadro e fez, uma vez mais, o Brasil conhecer o "lado B" de seu serviço exterior.

As famílias que entram nessa "aventura" de representar o Brasil em locais que apresentam riscos precisam de auxílio, informação e maior suporte do governo. Muitos e frequentes são os casos de malária entre funcionários e contratados locais, mas não são só as doenças que ameaçam... Existem os riscos de atentados, furacões, terremotos, distúrbios civis. Todos esses casos ocorreram nas duas últimas semanas em alguma parte desse mundo, lugares onde temos colegas próximos trabalhando, queridos amigos que também colocaram "o pé no mundo". Basta ver algumas notícias da semana: furacão no Haiti e nos EUA, terremoto na Guatemala, frequentes atentados e distúrbios civis no Iraque, Síria, Líbano...

Não raro vem a pergunta: "vale a pena o risco?" ou "o que estou fazendo aqui?" - mas aqui estamos! Haja coragem para deixarmos nossa pátria, que não sofre com nenhum desses infortúnios!

A amiga de Berenice, Erika Vanessa, postou, na página do facebook do MRE Brasil, a seguinte mensagem:

"Venho manifestar o meu repúdio a uma situação infelizmente tão comum no MRE, mas pouco conhecida de toda sociedade. Veio a falecer uma querida colega que estava em Malabo. A Assistente de Chancelaria Berenice Ferreira faleceu em decorrência do agravamento do quadro de malária e febre tifóide adquiridos durante sua missão. Foi mandada com urgência ao Brasil e não resistiu. Muito se falou e muito se repercurtiu após o falecimento da Diplomata Milena, mas o que acontece de fato é que pessoas continuam morrendo. Servidores públicos a serviço do país continuam morrendo de graves doenças, principalmente em postos C e D no exterior. Muita coisa precisa ser mudada e repensada no tratamento dos servidores públicos a serviço do Governo brasileiro em outros países. Não se pode mais admitir tanto descaso. O apoio necessita ser integral, efetivo. Quantos mais precisarão morrer até que finalmente alguma providência efetiva possa ser tomada? Quantos mais precisarão perder a vida? Isso precisa ser divulgado para toda sociedade, para aqueles que, por desconhecimento, muitas vezes pensam que nós vivemos vida de luxo no exterior. Casos como o da AC Berenice não são divulgados, mesmo sendo o retrato da realidade. Fica aqui o meu manifesto, o meu repúdio à falta de estrutura no exterior. Queremos DIGNIDADE!"
https://www.facebook.com/Brasil.MRE?fref=ts

Deixo aqui o registro e meus pêsames a mais esta família.
Para os que seguem, desejo saúde, coragem e ânimo!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Descobrindo a África

No último post comentei sobre a falta de água durante 4 dias em Libreville, isso já faz uns 10 dias... A distribuição de água voltou na data prevista e a rotina voltou ao normal. Na verdade, nem tanto! Tiveram 2 feriados nas últimas 2 semanas - explicando o meu sumiço! =)

Na sexta-feira, dia 26 de outubro foi o feriado islâmico de Eid al-Adha ou Festa do Sacrifício. O Gabão adota os feriados islâmicos, mas também os feriados católicos. Aproveitamos o feriadão para também fugir da falta de água e fomos nos aventurar a apenas 300 Km de distância:  na ilha paradisíaca de São Tomé e Príncipe, que possui cerca de 160 mil habitantes!

Até 1470 as ilhas eram desabitadas. Descoberta pelos portugueses que a dominaram até 1975. Importaram mão-de-obra escrava das demais colônias para a produção de cana-de-açúcar, café e cacau.



Marco do Equador. A linha que separa os hemisférios.
Desfrutamos de maravilhosos dias de sol, de história, de paisagens de encher os olhos e o coração. Revimos amigos queridos e nos embriagamos da simplicidade e da simpatia desse povo tão próximo de nós brasileiros - mesma língua, mesmas frutas e em muitos momentos do passado, partilhamos da mesma história. Foi incrível, inesquecível...






Forte Português. 
Voltando a Libreville, foi decretado feriado nos dias 01 e 02 de novembro, e assim emendando, mais uma vez, com o fim de semana. Tentamos ir para Angola, porém, por alguns detalhes na programação, mudamos o roteiro e fomos para o Marrocos.  Um roteiro que já estava nos nossos planos há mais de 6 anos!!! Claro que reduzimos o roteiro para caber no feriado, mas foi como previsto: incrível, extasiante!

Casablanca







Fès






Aos poucos vamos descobrindo as riquezas do continente africano. Tantas belezas, tantas culturas, tanta história.