quinta-feira, 25 de abril de 2013

Esposa de diplomata? Embaixatrizo?

Nossas aventuras pela África continuam! 
Recentemente completamos 1 ano em África. Foi um ano de muitas novidades, tantas descobertas, cores, paisagens, sabores!

Além da oportunidade de morar em Libreville ainda conseguimos conhecer outras cidades africanas: Joanesburgo, São Tomé, Cotonou, Luanda, rápidas passagens por Adis Abeba e Ponta Negra, e ainda a linda Cidade do Cabo! Cada uma dessas cidades deixou sua marca especial na minha memória e impressões daquelas que só se pode ter vendo com seus próprios olhos. 

Foto: Gabriela Oliveira (Cotonou, Bénin)
Ainda temos muitos planos de viagem e amigos para visitar na África. Vamos tentando assim conhecer um pouquinho mais esse continente tão incrivelmente cheio de riquezas naturais, humanas, gastronômicas, religiosas, étnicas, idiomáticas... 

Foto: Gabriela Oliveira (Cotonou, Bénin)
Quanto à experiência da vida diplomática, eu diria que agora me sinto um pouco mais situada e recompensada pelas difíceis decisões de deixar o Brasil, meu trabalho e tantas outras coisas e sonhos. Ganhei, no entanto, em um ano o que eu não ganharia em uma vida: a possibilidade de ver o mundo de perto. Essa oportunidade de acompanhar um diplomata pode parecer ser cheia de glamour e de facilidades, mas será só isso?

Se ser diplomata já é algo meio mítico, a "vida de esposa de diplomata" é quase que incompreensível. Responder a fatídica pergunta "o que você faz?" torna-se um desafio, uma prova de fogo, algo que, para mim, ainda não está fácil de lidar.

Esta semana eu conversei com um amigo cuja esposa é diplomata e falamos dessa dificuldade que as pessoas têm em compreender o papel daqueles que acompanham os diplomatas em suas missões mundo afora. Ele me disse que se sentia bem com sua situação, porém que vinha constatando que, para muitas pessoas, a situação de "acompanhante" gera certo estranhamento, principalmente quando o diplomata não é o homem.

São olhares, caras e bocas de reprovação ou ainda as famosas "cara de pena" ou "cara de legal", quando na verdade o interlocutor pensa que a pessoa não passa de uma aproveitadora, folgada, gigolô... São deprimentes os julgamentos a que as pessoas nessa situação de "expatriados acompanhantes" estão sujeitas! 

Muitos desses "questionadores" mal sabem que muitos sonhos tiveram que ser abdicados, postergados, substituídos... Tornar-se "o(a) acompanhante do(a) diplomata" nem sempre é uma opção, é um dilema a ser vencido, uma barreira a ser driblada. O que nem todo mundo sabe é que existem algumas dificuldades em trabalhar no exterior:

  1. O cônjuge de diplomata só possui autorização para trabalhar em países com os quais o Brasil possua acordos específicos que permitam o exercício de atividade profissional. 
  2. Existem países que simplesmente não empregam estrangeiros em determinadas atividades, reservadas à mão de obra local. 
  3. A profissão do cônjuge nem sempre pode ser facilmente exercida em outro país. 
  4. O casal estará em missão temporária e o empregador sabe disso, dificultando contratações. 
No caso de não conseguir exercer sua profissão no exterior, restam poucas opções aos cônjuges para evitar esse contínuo constrangimento: entrar para a carreira diplomática ou procurar atividades que possam ser exercidas em qualquer lugar (sorte daqueles que têm o dom da pintura, da música, da escrita...). Não raro, casais, do meio diplomático ou expatriados, decidem morar em países diferentes para que as carreiras não sejam prejudicadas; outros optam por estender ao máximo sua permanência no Brasil, para não sacrificar seu parceiro e nem o casamento. 

Outro dia fomos convidados para um almoço na casa de uma diplomata, que está em missão aqui em Libreville. Fomos recebidos na porta pelo marido dela, que fez as honras de anfitrião: nos conduziu à sala, nos serviu bebidas, nos mostrou a vista do apartamento, falava sobre músicas brasileiras e suas excursões pela cidade; enquanto ela, a diplomata, finalizava o almoço na cozinha e organizava as louças. Ele nos conduziu à mesa e sentou no lugar de destaque. Achei incrível a leveza com que o casal desempenhava os papéis, todo o movimento era natural, nada ensaiado, mostrando que eles conseguiram equilibrar perfeitamente a diplomacia, a família, o preconceito.

E, assim, cada casal vai tentando achar o caminho menos penoso e mais saudável para conciliar suas vidas profissionais e o desejo de permanecerem juntos. Não muito tempo atrás era raro ouvir notícias ou relatos das dificuldades enfrentadas pelos casais diplomáticos em função das escolhas profissionais de cada um, hoje, porém, já é possível encontrar algum material a este respeito. 

Abaixo compartilho algumas histórias de esposas, diplomatas, embaixatrizos:

  • Biografia de Clarice Lispector: "Aos 23 anos de idade (1943), Clarice se casa com Maury Gurgel Valente, futuro diplomata. Fruto dessa união, nascem dois filhos: Pedro e Paulo. Porém, a dificuldade é muito grande em acompanhar o diplomata e Clarice começa a se ver dividida entre a vida de esposa de diplomata e a deixar para trás família e amigos. Certa vez, chega a dizer : “Eu conhecia melhor um árabe com véu no rosto quando estava no Rio. Todo esse mês de viagem nada tenho feito, nem lido, nem nada. Sou inteiramente Clarice Gurgel Valente”, reafirmando que sua vida se resumia à de apenas acompanhar o marido. Esse é o principal motivo de sua separação, em 1959 – Clarice decide, então morar no Rio de Janeiro, onde enfrenta um período de solidão e restrições financeiras." http://www.portuguesdobrasil.net/clarice_lispector.htm
  • Embaixatriz Yeda Assumpção, livro "Passaporte Diplomático": "Tinha uma vida muito intensa. Trabalho intenso, contatos variados, uma vida cultural rica, com muitos eventos. A Embaixada da França, por exemplo, é um núcleo fantástico, sempre cheia de artistas, pintores, conferencistas, sociólogos... Uma vida movimentada que nos deixava com a cabeça alerta. A volta foi difícil pelo término destas atividades. Este esvaziamento foi o que me levou a este livro. Teve seu lado positivo."http://www.record.com.br/autor_entrevista.asp?id_autor=2737&id_entrevista=79
  • Relato de Sonia Bonzi, esposa de diplomata: 
    "Chegou a hora de arrancar as ainda frágeis raízes, que começavam a se firmar no cerrado, que eu aprendi a amar. Deixar o Brasil, despedir dos meus pais, abandonar o conhecido e me lançar em um outro desafio não foi fácil. Derramei litros de lágrimas. Em Viena, tomei mais consciência do que realmente me esperava nesta vida de acompanhante de diplomata, sem tempo para enraizar. Caminho de mudanças, instalações, adaptações e submissão às novidades." 
    http://redefurada.blogspot.fr/2012/10/como-e-vida-de-um-diplomata.html
  • Debate em Portugal: 
    “As mulheres dos diplomatas muitas vezes são um pouco esquecidas, porque estamos atrás da figura essencial, que é o diplomata,” disse ela. “Nós muitas vezes somos o fiel da balança. Tentamos equilibrar as coisas a nível harmonioso dentro de casa, e, fora de casa, tendo sempre no coração a representação do estado português.” Muitas vezes, isso significa também abdicar das suas próprias carreiras. 
    “Se não abdicamos da nossa carreira, deixamo-la em “stand-by.” Se não [a deixamos] em “stand-by,” abdicamos da nossa vida familiar.” 
    http://ojornal.com/pt-pt/portuguese-brazilian-news/2013/03/as-mulheres-e-a-diplomacia-foi-tema-de-palestra-na-cani/#axzz2RTmsAMN6
  • Matéria que, embora já esteja bem desatualizada, ainda serve para contextualizar: "Até a década de 70, entretanto, quando dois diplomatas se casavam, um deles abandonava a carreira. Aconteceu com Maria Sandra, ao tornar-se mulher do embaixador José Augusto Macedo Soares. Ela aposentou-se, virou embaixatriz e, deprimida, suicidou-se em 1975, em Bogotá. Dez anos depois, caía o impedimento de marido e mulher assumirem postos no exterior." http://epoca.globo.com/edic/19990628/soci2.htm

Dizem que o ser humano é o animal mais adaptável do planeta, não é?