sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Encontros II

A comunidade brasileira no Gabão é bastante pequena. Em torno de 70 pessoas, boa parte religiosos vivendo no interior do país. Cerca de 20 moram em Libreville, a maioria brasileiras que se casaram com gaboneses quando esses realizavam seus estudos superiores no Brasil. Teve uma brasileira, porém, que não quis embarcar para Gabão... E aí começa a história que conto hoje, a história do Fábio. 

Nosso amigo Fábio nasceu no Brasil e tem sobrenome gabonês. Desde pequeno sabia que seu pai era africano e que sua mãe não havia aceitado a proposta do então companheiro de embarcar com ele de volta para o Gabão. Fábio passou quase 30 anos pronunciando errado o seu sobrenome e sem saber quase nada sobre seu pai, senão o nome. Um ano atrás ele finalmente ouviu a pronúncia correta do seu sobrenome pela primeira vez, quando veio ao Gabão conhecer seu pai. 

O caminho de Fábio até chegar aqui foi longo. A mãe havia perdido o contato com o pai, o que fez com que ele, ainda na adolescência, tenha iniciado a buscar pistas na internet, quando o Google ainda mal existia. Muitos anos depois, em um site de bate-papo, encontrou um rapaz africano que acabou se provando ser seu meio-irmão. Mesmo com as dificuldades linguísticas, eles passaram a se comunicar e o Fábio decidiu fazer a grande viagem rumo às suas origens. Veio a Libreville de mente, espírito e coração aberto. Encontrou não apenas seu pai, mas seus irmãos, tios, tias, primos, avós e as esposas de seu pai (sim, aqui é permitido!). 

Fábio agora busca conciliar suas atividades profissionais em comércio exterior com o seu vínculo gabonês recém descoberto. Mais do que ninguém, ele quer estreitar os laços Brasil-Gabão. 

Em duas visitas que fez ao Gabão, Fábio já foi para o interior do país de trem e em uma das paradas viu pegadas e rugidos de pantera, visitou vilarejos, foi apresentado aos pratos tradicionais: carne de macaco, cozido de vermes de árvores e várias outras especiarias. Experimentou bebidas de tirar o ser humano de seu eixo por alguns dias, conheceu músicas, histórias, suas raízes. Não foi uma visita turística e nem a experiência vivida pelos expatriados. Foi a imersão imediata no dia-a-dia, nos costumes de uma família verdadeiramente gabonesa... a família dele. 

Em uma dessas noites de calor gabonês (quente, muito quente), presenciei o Fábio e o seu pai conversando sobre suas vidas. O pai, esforçando-se para relembrar o português que aprendera no Brasil quase trinta anos atrás. O filho, dando seus primeiros passos no francês e no batéké, a língua nativa da família. No meio de toda aquela mistura de mundos e recordações, uma coisa ao menos ficava clara: sentimentos não precisam de tradução. 

Nessa noite, ao descobrir que o Fábio tem talento para a música, providencio às escondidas para que ele possa dar uma "palinha" no piano do restaurante. Ele começa a tocar algumas notas, surge um jazz. Impossível não se emocionar ao ver lágrimas no rosto do pai, que acabara de descobrir mais um motivo para se orgulhar do seu filho recém encontrado.